A alta competitividade do Vale do Silício instiga dietas radicais — para o corpo e para a mente

Jack Dorsey (Foto:  Bill Pugliano/Getty Images)

 

Pouco antes da ligação para a entrevista desta reportagem, o empreendedor Geoffrey Woo, de 29 anos, trancou-se no banheiro do escritório de sua empresa, em São Francisco, na Califórnia, e com uma pequena seringa picou a ponta de seu indicador esquerdo. É uma prática que ele repete duas vezes ao dia. Woo precisava de uma gota de sangue para abastecer seu Keto-mojo, um pequeno aparelho que mede os níveis de açúcar do organismo. O dispositivo é geralmente usado por diabéticos, mas para Woo tem outra finalidade.

Formado em ciência da computação pela Universidade de Stanford, Woo é cofundador da HVMN (pronuncia-se human, “humano” em inglês), startup que estuda e vende produtos à base de cetona, um componente usado geralmente por soldados para manter a disposição física e mental durante longas batalhas. Graças a uma parceria com a Universidade de Oxford, da Inglaterra, e o Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos, Woo conseguiu a patente para fazer da HVMN a primeira empresa a comercializar ao público em geral pílulas, bebidas e suplementos à base de cetona. As vendas começam agora nos Estados Unidos e, por isso, Woo não pode dar bobeira em suas medições diárias de sangue. “Preciso ter controle absoluto dos dados para poder provar a eficiência do que estou oferecendo”, diz ele.

Woo é também adepto e um dos principais incentivadores de uma dieta que vem ganhando fama entre os profissionais de tecnologia no Vale do Silício — o fasting (dieta do jejum), que consiste basicamente em passar alguns dias da semana ou longos períodos diários sem comer. Na lista de seguidores, estão empresários como: Phil Libin, ex-presidente da Evernote e fundador da All Turtles, empresa de soluções em inteligência artificial; Loic Le Meur, cofundador da LeWeb, que organiza eventos de tecnologia na região do Vale; e o investidor Daniel Gross, da Y Combinator. Há milhares de outros nomes — Woo coordena um grupo com mais de 25 mil membros para trocar ideias e orientações sobre a dieta.

Os seguidores combinam jejum com monitoramento obsessivo de sinais vitais, incluindo índices de glicemia e cetona — o composto também é produzido naturalmente pelo fígado quando o corpo se encontra em estado de “muita fome”. Os produtos vendidos por Woo, no entanto, ajudam a potencializar o processo e amenizam um eventual desconforto durante o período sem alimentação. “Nós estamos aprimorando o corpo humano”, diz Woo, sem rodeios. “Estamos testando limites, amparados pela ciência, a tecnologia e a análise de dados.”  

Insetos (Foto:  )

 

Os testes feitos por Woo duas vezes ao dia, no banheiro do escritório, são importantes não apenas para que ele saiba se está bem, mas para que possa verificar se os níveis das tais cetonas estão subindo de acordo com o planejado. Os resultados apresentados pelo Keto-mojo são combinados com outros indicadores de saúde e depois cruzados com índices de produtividade no trabalho — algo que Woo rastreia e organiza com o uso de softwares como o Rescue Time. Dependendo do que encontra, Woo aumenta o período sem comer ou as doses das pílulas HVMN. “A maior parte do meu esforço é intelectual. Por isso, preciso alimentar meu cérebro mais que meu corpo”, diz Woo.  Mesmo nos dias da dieta — todas as terças-feiras —, ele comparece aos treinos. Woo é praticante de levantamento de peso.

Dietas extravagantes são coisa corriqueira no Vale do Silício. É importante estar em boa forma física por lá.  Em parte, isso é uma herança cultural. A Califórnia sempre esteve na vanguarda da cultura fitness nos Estados Unidos. Começou com os surfistas de San Diego e seguiu com o naturalismo das comunidades hippies dos anos 60 e 70. Esse grupo, embora não fosse lá muito fã de esportes, ajudou a promover uma alimentação saudável, com produtos orgânicos e menos industrializados. A maioria dos restaurantes californianos — ou pelo menos os mais badalados — baseia seus cardápios nesses princípios. Como resultado, o estado está entre os que têm a população mais magra e mais saudável do país. No Vale do Silício, especificamente, apenas 16% das pessoas são obesas — é uma das menores porcentagens entre todas as regiões americanas. O índice de obesidade geral dos Estados Unidos é de 40%. Se considerados também os americanos acima do peso, o percentual sobe para 70%.

MENOS COMIDA, MAIS RESULTADO

Quando os profissionais da tecnologia começaram a ocupar a região, a partir de Palo Alto, chegando a São Francisco, Santa Clara e subúrbios de São José, eles foram diretamente influenciados pela cultura naturalista e da boa forma — ainda que a tenham adaptado a um estilo de vida bem mais dinâmico. A obsessão pela boa aparência física prevaleceu. Basta dar uma olhada em imagens de dez ou 15 anos atrás de figuras como Jeff Bezos, da Amazon, Mark Zuckerberg, do Facebook, e Jack Dorsey, do Twitter, e compará-las com fotos atuais para perceber como eles parecem melhores, mais jovens, mais dispostos. Todos os grandes nomes das empresas de tecnologia mantêm rotinas rigorosas de esportes, com dietas rígidas. Dorsey, por exemplo, nada, corre e faz 20 minutos de agachamento todos os dias. Sua dieta é a paleolítica. Ele não consome glúten, álcool, laticínios ou açúcar — e só bebe água com gotas de limão.

Há também outros elementos que levam os profissionais do Vale do Silício a se entregarem a rotinas nada ortodoxas de alimentação. “Por aqui, as modas nutricionais se sucedem no mesmo ritmo das transformações tecnológicas”, diz Sherin Bahrami, terapeuta especializada em problemas causados por desordens alimentares e que atende na região da Baía do São Francisco. “Da mesma forma que esses profissionais acreditam que estão criando soluções capazes de tornar nossas vidas melhores, eles também se acham capazes de buscar formas de alimentação revolucionárias, com resultados radicais. O problema é que isso se espalha de forma desenfreada e acaba virando mania, sem o devido acompanhamento médico.”

O clima de alta competitividade impulsiona a maioria dessas dietas. Em todas elas, o resultado esperado vai além da perda de peso. Os profissionais querem encontrar maneiras de trabalhar mais — seja fazendo o cérebro funcionar melhor, como defende Woo, seja simplesmente ganhando tempo ao não fazer refeições. O direcionamento é sempre a busca pela produtividade. Não foi à toa que o Soylent, composto nutritivo desenvolvido em 2013 pelo engenheiro de software Rob Rhinehart, tornou-se mania no Vale em pouquíssimo tempo. A bebida promete substituir as necessidades nutricionais diárias e é fácil de ser preparada — basta misturar o pó com água ou qualquer outra coisa que estiver mais à mão.

Insetos (Foto:  )

 

“Tudo no Vale do Silício se baseia em otimizar o tempo para ter melhores ideias e mais chances de criar algo novo e revolucionário”, diz Peter Fernandez, de 34 anos, atual presidente da 99 no Brasil. Nascido na Flórida, Fernandez passou seis anos como executivo do Google. Hoje, ainda mantém muitos dos hábitos que adquiriu em Mountain View e que, na sua visão, ajudaram a fazer da 99 a primeira unicórnio brasileira — startups avaliadas em mais de US$ 1 bilhão. Para economizar tempo e também “energia de decisão”, Fernandez almoça todos os dias no mesmo lugar, um restaurante por quilo e com pouco charme a apenas três minutos de caminhada do escritório da 99 em São Paulo. No café da manhã, ele opta pelo bulletproof coffee, um drink que prepara em casa, misturando café, óleo de coco e uma barrinha de manteiga. “É excelente. Dá toda a energia que você precisa de uma única vez”, diz Fernandez. “Mas tem de ser manteiga feita a partir de leite de vaca que come grama — não da que come ração.”

A bebida é famosa na Califórnia. Virou moda com a publicação do livro Bulletproof — A Dieta à Prova de Bala, de Dave Asprey, ex-executivo da região que decidiu compartilhar a receita depois de uma viagem ao Tibete. Em vez de ter de se sentar à mesa para consumir pão, bacon e ovos, programadores, investidores e cientistas da computação só tinham de misturar café e manteiga num copinho e sair diretamente para o escritório, devidamente alimentados.

ESPELHO MEU

Pular refeições ou comer rapidamente é um hábito comum entre os americanos. Mas, no Vale do Silício, a ideia é levada ao extremo, e passou a ser considerada ainda mais admirável desde que Elon Musk, CEO da Tesla, comentou: “Se fosse possível não comer, poderia trabalhar mais. Meu desejo é ingerir alguns nutrientes e ficar bem alimentado, sem precisar parar para isso”. Comportamento humano, afinal, é algo que se copia, especialmente quando você quer ser aceito em um determinado grupo.

Com demandas tão específicas, a Califórnia acabou se transformando em um celeiro para foodtechs, startups que recorrem à tecnologia para criar novas possibilidades de alimentos — mesmo que estes não levem necessariamente a uma vida melhor ou mais produtiva. Dificilmente haveria tanto espaço para experimentação em outros lugares do mundo, que priorizam o prazer nas refeições. Dá para imaginar, por exemplo, uma empresa que produz proteína a partir da pena de frango na Itália ou na França? Dificilmente. Mas a Just, startup de São Francisco, está realizando testes com sucesso nesse sentido — a perspectiva é colocar o primeiro produto no mercado no final de 2018. Embora haja céticos em relação ao negócio, a startup já atraiu US$ 310 milhões em investimentos de empresas de capital de risco do Vale.

Uma outra novidade por lá é a Habit, empresa recém-criada pelo ex-punk e militante vegano Neil Grimmer em Oakland, cidade vizinha a São Francisco. Depois de vender em 2013 a sua primeira startup — a Plum Organics, que produzia papinhas de bebê com produtos orgânicos para a Campbell’s Soup —, Grimmer decidiu aproveitar o conhecimento tecnológico da região para criar soluções que ajudassem pessoas a perder peso e também a conseguir, nas suas palavras, “alcançar todo o seu potencial”.

Insetos (Foto:  )

 

A Habit, que por ora atende exclusivamente clientes da região de São Francisco, usa análise de dados e inteligência artificial para, a partir do DNA, definir a melhor alimentação para cada indivíduo. Por US$ 300, o cliente recebe em casa um kit para realizar o teste. Em até oito semanas, tem de volta um estudo com detalhes de como o organismo reage a diferentes nutrientes. “O bacon não é necessariamente ruim para todo mundo”, diz Grimmer. “Tem gente que metaboliza a gordura muito bem e rapidamente.” Os clientes também têm a opção de contratar um serviço de entrega de refeições considerando exatamente a dieta indicada. Os pratos custam a partir de US$ 15. Os testes de DNA para tratamentos de saúde não são novidade. Mas a Habit conseguiu direcionar a tecnologia para algo mais específico — e estruturar um modelo de negócio escalável ajustado às demandas atuais de um grupo de profissionais que vêm ditando as tendências em tecnologia há décadas.

Entre as muitas razões que levam a região a escrever novas regras para a alimentação — ainda que estas sejam questionáveis —, há a crença de que ali será possível criar soluções que ajudem a aprimorar o funcionamento humano, tanto física quanto intelectualmente. Os engenheiros do Vale do Silício realmente acreditam que podem viver mais. Então, não há problemas em se sacrificar por um objetivo maior e praticamente garantido. Em certa medida, eles têm razão. Quem nasce hoje tem 50% de chance de viver até os 105 anos — bem mais do que a expectativa de vida média atual, de 70 anos.

Por ora, no entanto, não há evidências científicas de que os alimentos tecnológicos ou as dietas seguidas no Vale do Silício tragam de fato benefícios no longo prazo. Mas faz sentido pensar que as refeições poderão se transformar muito em breve, à medida que as necessidades nutricionais também mudarem. Em um artigo na Scientific American, o professor William R. Leonard, atual diretor de estudos de saúde global da Universidade Northwestern, diz que uma das causas da obesidade é que o desejo por alimentos ricos em energia — notadamente aqueles que incluem gordura e açúcar — ficou mais simples de ser saciado, uma vez que esse tipo de alimento está cada vez mais barato e acessível. Ao mesmo tempo, conforme a humanidade evolui e mais distante ficamos dos primórdios da revolução industrial, menor é nosso esforço físico em todos os aspectos cotidianos. Nós consumimos mais energia e gastamos menos. O que cresce agora, no geral, é o esforço mental. O especialista vai além e pontua que “o desenvolvimento de suplementos nutricionais, que substituem refeições, é uma continuação da tendência iniciada por nossos ancestrais: obter o máximo de retorno nutricional, no menor volume e com o mínimo esforço”.

Nesse sentido, o papel social das refeições poderia também perder relevância. Se isso acontecer, mesmo que de maneira meio torta, o Vale do Silício estará mais uma vez antecipando o futuro.

legenda branca fake (Foto: d.)