Criptoeconomia tem importância estratégica para o Brasil

Bitcoin; criptomoeda (Foto: Pexels)

 


Para grande parte dos brasileiros, criptoeconomia ainda é um tema muito nebuloso. Posso elencar uma série de fatores que contribuem para isso, a começar pela desconfiança com tudo aquilo que é novo e que parece muito distante do nosso cotidiano. Porém, esse distanciamento tem dias contados. A criptoeconomia já impacta positivamente muitos países e deve, mais hora ou menos hora, impactar a vida dos brasileiros também. Pode ser que demore cinco, 10, 20 anos. O tempo é apenas uma questão e governos e empresários devem estar abertos a essa futura realidade. Afinal, o mundo seguirá esse caminho e ficar para trás não é uma opção.

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A história já nos provou diversas vezes que é impossível evitar os avanços tecnológicos. A criação do cartão de crédito é um bom exemplo. Criado nos EUA na década de 20, apenas na década de 90 tornou-se popular no Brasil. No início, as pessoas não entendiam o seu funcionamento. Parecia irreal e complicado um cartão que não desconta o valor no momento da compra, disponibiliza uma fatura semanas depois e ainda permite o parcelamento. Passadas algumas décadas, milhões de brasileiros fazem uso dele.

Outro exemplo é o 4G. Quando foi lançado, a Europa levou dois anos a mais que os EUA para instalar suas redes. Foi nesta época que no solo americano nasceram a Amazon, o Uber e o Facebook. A Europa aprendeu e hoje não mede esforços para compensar o tempo perdido.

Outro fator que cria distância entre o tema criptoeconomia e os brasileiros é o discurso “apocalíptico” adotado e difundido, principalmente após o advento das redes sociais, por pessoas que não entendem o assunto e acreditam que as moedas digitais são utilizadas apenas para fins de corrupção ou como um esquema de pirâmide. Essa é uma interpretação equivocada, uma imagem que precisa ser desconstruída, razão pela qual é essencial falar sobre criptoeconomia hoje em dia.

Quem já teve contato com o tema deve ter ouvido termos como blockchain, fintech, criptoativos, bitcoin (que é um tipo de criptomoeda) e mineração, dentre muitos outros. Pode parecer grego no começo, mas acredite em mim: é mais simples do que parece.

Recentemente, tive a oportunidade de participar do FinTech Mission to Switzerland, missão organizada pelo Swiss Business Hub, que incluiu diversas palestras e reuniões para apresentar o ecossistema jurídico e regulatório suíço aos empresários e estudiosos brasileiros. Em seguida, participei da Crypto Valley Conference, organizada pela Crypto Valley Association, que reuniu mais de 100 apresentações de líderes da indústria global e diversos painéis de discussão sobre tecnologia, economia, finanças e regulação dos processos de blockchain.

Voltei ao Brasil com a certeza de que a criptoeconomia é um assunto de importância estratégica tanto para empresários quanto para o governo. Não se trata apenas de “globalizar” o dinheiro. É sobre tornar o país mais competitivo.

Como qualquer tecnologia nova, a adesão tende a ser pequena no início, mas é questão de tempo para ser abraçada. O lançamento da Libra (criptomoeda criada pelo Facebook) iniciará uma nova fase de popularização dos criptoativos. A tendência é que em pouco tempo as pessoas se acostumem a usar wallets e a realizar compras cotidianas usando criptoativos. A economia global fluirá de uma forma mais orgânica e rápida.

Com menos burocracia, tem início um novo ciclo de crescimento para todos os países que saírem na frente, como a Suíça. Com leis práticas e instruções flexíveis, este pequeno (mas próspero) país europeu vem criando um ambiente propício para empresas que queiram implementar novas tecnologias e modelos de negócios baseados em blockchain. Esse é o tipo de iniciativa que deve ser amplamente copiada em outros países.

Governos e empreendedores devem aproveitar momentos de transição tecnológica para identificar oportunidades que os tornem mais competitivos. É uma oportunidade para o Brasil se destacar, ainda que o país não seja um destino natural, seja pela falta de investimento em desenvolvimento e pesquisa na área tecnológica seja pela falta de um ecossistema jurídico e regulatório amigável ao empresário.

Se o governo brasileiro não se empenhar agora em desenvolver um modelo jurídico que permita o crescimento da criptoeconomia, nós assistiremos a mais uma diáspora de empresas e profissionais que seguirão para outros países em busca de um ambiente propício e acolhedor. O país precisa de um sistema de princípios jurídicos e regulatórios que siga padrões dos países mais desenvolvidos.

Esta, com certeza, poderá ser uma resposta do Brasil à nova e crescente cripto revolução global.

*Maria Carla Coronel é advogada do escritório Braga & Moreno