Na Venezuela, luta por sobrevivência aumenta desinteresse por eleição

Homem segura notas de bolívares em Caracas, na Venezuela (Foto: Mario Tama/Getty Images)

 

Faltavam dois dias para as eleições presidenciais que provavelmente confirmarão a permanência do presidente Nicolás Maduro no poder, e Armando — que por temor a retaliações do governo preferiu não revelar o sobrenome — estava numa fila para recarregar três garrafões de água. Ele dizia que perderia cerca de duas horas para fazer algo que já se transformou em rotina para muitos venezuelanos, por duas razões: a escassez de água é cada vez maior em várias regiões do país, e o preço da água mineral está cada vez mais elevado. Por um ou outro motivo, pessoas como Armando, formado em Relações Internacionais, devem dedicar parte de seu tempo a ir até centros que recarregam os garrafões a preços mais econômicos.

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Roubo de sacos plásticos
Essa é uma das principais angústias sociais do momento e ela ocupa um lugar muito mais importante na cabeça dos venezuelanos do que a eleição da qual não participará uma parte expressiva da oposição. Mais do que em votar nas presidenciais, a população está preocupada e ocupada com questões essenciais. Como ter água em casa.

“Daqui a algum tempo, vão nos cobrar caro por caminhar e respirar. A água é um elemento central na vida das pessoas e aqui virou um problema, entre outras razões, pela falta de manutenção de nossos sistemas hídricos”, comentou Armando, que já trabalhou em governos chavistas e hoje se diz decepcionado.

Para ele, “é absurdo que a gasolina seja quase de graça e a água custe tão caro”. De fato, encher o tanque de um carro em Caracas custa muito menos do que comprar uma garrafinha de água mineral. Apesar da crise do setor petroleiro, o preço da gasolina não aumenta, ao contrário de todos os demais produtos e insumos essenciais, submetidos a uma hiperinflação que não tem mais teto (a previsão do Fundo Monetário Internacional é de 13.000% para 2018).

Muitos prédios de Caracas estão sofrendo pela escassez de água. Em alguns bairros pobres, como Petare, considerada a maior favela da América Latina, a falta de água já dura quase seis meses. O drama é tão grande que já ocorreram casos de roubo de água em prédios de Altamira, zona de classe média e média alta da capital. Também surgiu o que já é chamado de “máfia dos caminhões-tanque”, que vendem água a preços altíssimos. Essas novidades se somam a outros desabastecimentos críticos e já crônicos de alimentos e medicamentos.

Com um dia a dia tão difícil, a verdade é que muitos venezuelanos não acompanharam a campanha eleitoral. A sensação entre muitos é que tudo só vai piorar, aconteça o que acontecer amanhã. De acordo com recente pesquisa da empresa de consultoria Datanálisis, cerca de 30% dos venezuelanos estão decididos a não votar, apenas 34% têm absoluta certeza de que o farão. A campanha de setores da oposição pela abstenção fortaleceu o desinteresse num pleito não reconhecido como legítimo por vários países.

A realidade é que a quase certa reeleição de Maduro já é considerada fato na Venezuela, e com essa certeza as pessoas estão mais dedicadas a resolver seus problemas cotidianos do que a pensar em política. Esse é o caso da porteira Gisela Hernández, de 68 anos, que foi com seus garrafões de água a uma torneira improvisada na Rodovia Cota Mil. A água que sai dessa torneira vem do Monte Avila, cartão-postal da cidade.

“Venho aqui quase toda semana, não podemos mais pagar o preço que os supermercados cobram pela água mineral”, comentou Gisela, enquanto esperava na fila para recarregar seus garrafões.

Ela é chavista e continua defendendo o governo Maduro do que considera “uma guerra econômica” (um dos principais argumentos do presidente para justificar a gravíssima crise econômica). Assegurou que vai votar “porque qualquer outra coisa seria pior”.

“Não prestei muita atenção nesta campanha, a vida está tão dura que não temos tempo para mais nada, mas vou votar”, afirmou Gisela, que mora com uma filha e uma neta e faz malabarismo para cobrir suas necessidades básicas de alimentação.

Sem papel-moeda, sequestros caíram
Chavistas, opositores e independentes vivem esta nova eleição presidencial com apatia política e desânimo em relação ao futuro. Todos os dias surgem novos dramas na vida dos venezuelanos, alguns tão absurdos que são difíceis de acreditar. Um dos últimos é o roubo de sacos de lixo. A queda abrupta na produção de plástico provocou escassez e disparada dos preços, levando alguns venezuelanos a terem a ideia de roubar sacos de lixo usados, que são esvaziados, lavados e vendidos.

Não existem estatísticas oficiais, mas na cidade comenta-se que outros delitos diminuíram — os sequestros, por exemplo, pela falta de circulação de dinheiro em papel. Hoje é muito difícil fazer uma retirada nos bancos, o que dificultou o pagamento de resgastes.

Todos os dias, ocorrem manifestações espontâneas de venezuelanos fartos de viver num inferno astral que parece não ter fim. Ontem, em Sucre, na Grande Caracas, um grupo protestou contra a falta de alimentos num supermercado e foi reprimido pela Guarda Nacional Bolivariana com bombas de gás lacrimogêneo. Para essas pessoas, o importante não é a eleição de amanhã, e sim como a Venezuela vai sair do atoleiro em que está metida.